No artigo sobre o circuito do papel, a pergunta era se a empresa usa plenamente o ERP que já paga. A pergunta que veio logo depois, em mais de uma conversa, foi mais direta: e o meu sistema faz isso?
Fomos à documentação pública dos quatro sistemas mais usados pelas incorporadoras brasileiras e colocamos lado a lado o que interessa a quem opera o financeiro: quem busca a nota do fornecedor sozinho, quem aprova pelo celular, quem concilia o banco, e por onde o dado sai para um relatório ou para um BI. Não é um ranking. Os quatro são sistemas sérios, com anos de mercado. O objetivo é saber o que perguntar, e o que ligar.
Quem é quem
São quatro sistemas, mas só três grupos por trás deles. Isso importa, porque dois dos quatro estão sendo unificados.
Sobre o tamanho de cada um, os números disponíveis são os que os próprios fornecedores divulgam. O Sienge declara mais de 9 mil clientes em todos os estados e diz que 80 das 100 maiores construtoras do Ranking INTEC 2026 usam alguma solução do seu ecossistema. A Senior diz que 56% das construtoras de capital aberto do mesmo ranking usam suas soluções, e que no Norte e no Centro-Oeste mais da metade das ranqueadas é cliente dela. A TOTVS não publica o número do segmento.
O que cada um faz, lado a lado
Três marcações. Recurso próprio: a função existe no próprio ERP. Produto complementar: a função existe, mas por outro produto do mesmo fornecedor, contratado à parte. Confirmar: não localizamos na documentação pública e vale perguntar ao fornecedor.
| Função | Sienge | UAU | Mega | TOTVS Construção |
|---|---|---|---|---|
| Nota do fornecedor buscada na SEFAZ, sem ninguém baixar o XML | Recurso próprio Módulo de recepção de NF-e, com manifestação automática de ciência |
Produto complementar Pelo Senior e-Docs, de licença própria. No UAU, a importação nativa é do XML salvo em pasta |
Recurso próprio Gerenciador de NF-e consulta a SEFAZ e insere as notas no sistema |
Produto complementar Pelo TOTVS Colaboração 2.0, com vínculo automático ao pedido de compra |
| Aprovação no celular | Recurso próprio Aprovação de pedido de compra em tela para celular e aplicativos de aprovação de pedido e de contrato |
Recurso próprio Aprovação de pagamento por aplicativo |
Confirmar Não localizado na documentação pública do Mega |
Recurso próprio Aplicativo Minhas Aprovações, integrado à linha RM a partir da versão 12.1.28 |
| Conciliação bancária automática | Recurso próprio Por extrato OFX e por extrato digital |
Recurso próprio Conciliação bancária automática |
Recurso próprio Conciliação automática por data, tipo e número de documento |
Recurso próprio Reconciliação automática, com importação de extrato OFX |
| API para tirar o dado do sistema | Recurso próprio API REST e consulta em massa. Para clientes em nuvem, com limite diário definido pelo pacote contratado |
Recurso próprio Mais de 100 rotas REST. A API é instalada junto do sistema e o desenvolvedor é homologado pela própria empresa cliente |
Recurso próprio APIs de integração da plataforma Senior |
Recurso próprio Webservices da linha RM e API de consulta SQL, que executa consultas cadastradas no próprio sistema |
| Webhook: o sistema avisa quando algo acontece | Recurso próprio Contas a pagar, caixa e bancos, contratos e medições, diário de obra |
Recurso próprio Com assinatura da mensagem e registro de cada envio |
Recurso próprio Tela própria de webhooks no módulo de construção |
Confirmar Existe em outros produtos TOTVS; não localizado nos módulos de construção |
Levantamento da AFTER na documentação pública dos fornecedores, em setembro de 2026. Recursos variam por versão, por módulo contratado e por instalação. Antes de qualquer decisão, confirme com o fornecedor ou com o canal que atende a sua região.
O que a tabela mostra
A primeira leitura é que os quatro cobrem o essencial. Aprovação com registro, conciliação automática e uma forma de tirar o dado do sistema existem em todos. Para a maior parte das incorporadoras, a pergunta não é se o sistema faz, é se a função está ligada.
A diferença mais concreta está na nota do fornecedor. Em dois dos quatro, a busca automática na SEFAZ é do próprio ERP. Nos outros dois, depende de um produto complementar do mesmo fornecedor. Nada de errado nisso, mas muda a conta: quem compara propostas precisa saber se a função está no preço ou se vem depois.
A segunda diferença está na porta do dado. No Sienge, a API é da nuvem e o volume é definido por pacote, o que torna o custo previsível e pede atenção ao dimensionamento. No UAU, a API roda junto do sistema, sem cota do fornecedor, e o acesso depende da infraestrutura e da liberação da própria empresa. Na TOTVS, a consulta é cadastrada dentro do sistema, o que dá liberdade para trazer exatamente o dado que o relatório precisa e costuma envolver a equipe que administra o RM. São desenhos diferentes, e cada um tem o seu custo de manutenção.
O que a tabela não mostra
Recurso na lista não é recurso funcionando. Quatro coisas pesam mais do que qualquer linha acima, e nenhuma aparece na documentação.
- O que é da licença e o que é contratado à parte. Módulos, pacotes de API e produtos complementares mudam o preço real ao longo do contrato.
- Como o dado sai para o BI. Cota por pacote, servidor próprio ou consulta cadastrada: o caminho define quem precisa liberar o acesso, quanto custa e o que acontece quando a carga falha.
- Quem implanta na sua região. Os três grupos trabalham com canais, franquias e equipes próprias. A experiência de quem implanta com incorporação pesa tanto quanto o sistema.
- Quanto está ligado. O módulo que ninguém abre há um mês também está na fatura. É o ponto do circuito do papel: a pergunta não é qual sistema comprar, é quanto do que você já tem está funcionando.
Se você está escolhendo um sistema
Seis perguntas para levar à demonstração. Todas têm resposta objetiva, e a resposta vale mais por escrito na proposta do que na apresentação.
- A nota do fornecedor chega sozinha da SEFAZ? Está na licença ou é produto complementar? A manifestação é automática?
- A aprovação tem alçada e registro no celular? Para pedido, contrato, medição e pagamento, ou só para alguns?
- A conciliação é automática com o meu banco? Por arquivo OFX, por CNAB ou por integração direta? O que sobra para a pessoa conferir?
- A API está incluída? Tem limite diário? Quanto custa ampliar? Funciona na minha forma de instalação?
- Existe webhook? Para quais eventos? Com registro de envio e reenvio em caso de falha?
- No fim do contrato, levo todos os meus dados? Em que formato, em quanto tempo e a que custo?
Se você já tem um sistema
A maioria das incorporadoras está nesse caso, e aqui o conselho é outro. Trocar de sistema é a decisão mais cara que a operação pode tomar: migração de histórico, reimplantação, treinamento e meses de dois sistemas convivendo. Antes dela, costuma render mais ligar o que já existe.
- Faça o inventário. Módulo por módulo, com quem opera: o que está ligado, o que está contratado e parado, o que nem se sabia que existia.
- Ligue um circuito por vez. Comece pelo documento com mais toques, quase sempre a nota do fornecedor. Toque se corta, decisão ganha registro.
- Ponha o BI por cima. Com a API ou a consulta do seu sistema, o relatório passa a nascer do banco de dados, todo dia, com data e origem de cada número, e o fechamento deixa de ser o único momento em que a diretoria enxerga a empresa.
Fontes
- Sienge: nota fiscal de compra; manifestação automática; aprovação de pedidos no celular; aplicativos de aprovação; conciliação por extrato digital; APIs REST, consulta em massa e webhooks; limites da API.
- UAU: importação de notas; integração com o Senior e-Docs; funcionalidades; rotas da API; homologação de desenvolvedor; webhooks.
- Mega: gerenciador de NF-e; conciliação automática; webhooks.
- TOTVS: recebimento automático de NF-e na linha RM; app Minhas Aprovações; conciliação bancária; API de consulta SQL; TOTVS Construção na linha RM.
- Grupos e aquisições: Senior compra a Globaltec; Senior integra UAU e Mega no UAU XT; Starian, da Softplan.
- Presença declarada: Sienge e Sienge no Ranking INTEC 2026; Senior no Ranking INTEC.